e superfície lisa…
Muito se fala da síndrome da Disney: essa ideia de que, há muitos anos, filmes e desenhos que retratam histórias amorosas vêm nos contando como o amor deveria acontecer.
Nesses cenários, o romance é sempre desenvolvido com muito pesar; as histórias se desenrolam numa temperatura de desconforto, sempre com muitos problemas e percalços a serem ultrapassados.
Histórias de amor da Disney vêm sempre acompanhadas de dificuldades… e um final feliz. Para sempre.
A minha geração, acredito eu, já não compra mais essas histórias.
Já entendemos que o “happily ever after” não existe.
Só que, nesse aspecto, mora um outro problema dentro da síndrome da Disney:
Focamos tanto em negar e desconstruir a ideia de um final feliz para sempre, que esquecemos de olhar com atenção para todo o enredo das histórias que nos eram contadas.
Hoje em dia, precisamos nos atentar à ideia do Príncipe Encantado a Cavalo Esperado.
O PEACE (Príncipe Encantado a Cavalo Esperado) é justamente essa ideia do imaginário popular em que acreditamos poder criar conexões afetivas e amorosas sem nenhum ponto de fricção ou atrito.
Um campo do desejo onde o objeto amoroso nos oferece nada além de paz (peace).
É uma ideia de relacionamento onde tudo flui perfeitamente, sem insegurança, contradição, demandas, necessidades, atrito ou conflito.
É a crença de que o outro já vem de fábrica completo — e, sendo assim, o relacionamento jamais precisaria de ajustes.
É mais do que claro que não procuramos conexões que tirem a nossa paz ou que constantemente testem nossa paciência.
Entretanto, ser completamente avesso — ou até intimidado — pela demanda que o outro traz num relacionamento é acreditar que existe um PEACE com quem possamos nos relacionar.
É a busca pela pessoa perfeita, que se encaixará nas nossas próprias “perfeições”. Porque, afinal, é isso que levamos para o encontro com o outro: o que acreditamos ser perfeito em nós.
E, no fim, é isso que esperamos do outro: suas perfeições.
Assim como num roteiro de filme da Disney.
Se não estivermos dispostos a reconhecer nossas próprias imperfeições, não seremos capazes de acolher as imperfeições que o outro nos apresenta.
Será que queremos mesmo nos relacionar com vasos quebrados?
Ou seguimos buscando superfícies lisas, pessoas sem rachaduras e completas?
O quanto eu ouço pessoas dizerem que são “completas”… Óh D’us, o que é isso?
Acredito que, para criarmos conexões reais, precisamos mostrar — justamente — as marcas que criaram nossos vasos quebrados, os traumas que causaram nossas rachaduras, e toda a podridão que existe dentro de todos e cada um de nós.
Porque isso também nos compõe.
Sabe aquela história da “sua melhor versão”? Joga essa ideia no lixo.
Ninguém é capaz de sustentar uma versão que não apresente fragilidades e desconfortos.
A gente se sente realmente acolhido quando o outro conhece — e reconhece — nosso lado xoxo, capenga, manco, anêmico, frágil e inconsistente.
Não é sobre o outro tirar a nossa paz — é sobre abraçar a parte caótica que qualquer interação pode eventualmente nos proporcionar.
É sobre aliviar a pressão em nossos ombros e compartilhar, sem medo, toda a subjetividade que somos.


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