June

Eu estou chorando porque estou vendo o meu gato dormir e esboçar sinais de que está sonhando. E meu lado narcisista está se questionando se ele sonha comigo e o que ele sonha quando sonha comigo…

É engraçado pensar que, há alguns anos, eu não tinha que me preocupar em ter ração úmida para gato no armário ou em fechar a porta do banheiro toda vez que eu corria para dar uma mijadinha.

Desde que adotei um animal de estimação, muita coisa mudou na minha vida.

Quando fui questionado se eu gostaria de adotar um gato recém-nascido, precisei parar, olhar para a minha vida e checar se eu tinha espaço para mais uma responsabilidade.
Apesar de, em 2021, eu me considerar um quase adulto irresponsável, as responsabilidades que a minha vida exigia em tempo eram muitas: 28 anos, morando e cuidando sozinho de uma casa em um país em que eu não havia nascido ou crescido, recém-saído de uma pandemia mundial, me localizando profissionalmente e, como de costume, com a vida amorosa num estado de pandemônio — adotar um animal de estimação não parecia ser a melhor decisão. Ao mesmo tempo, eu imaginava que ter um motivo para não dormir fora de casa (à época) com tanta frequência seria algo que me ajudaria a me tornar uma pessoa mais responsável.

Outro detalhe que corroborava para a decisão de adotar um animal era que: gatos são animais autônomos e mais independentes do que cachorros.
Ao menos era isso que as pessoas me diziam (little did I know).

Foi assim que o June, em junho de 2021, entrou pela porta da frente da minha casa.
Na realidade, não bem assim: eu e um amigo tivemos que dirigir por quase uma hora e meia até a casa de outra amiga para, chegando lá, encontrar o gatinho que eu havia adotado escondido. E, diante dos gatos que não haviam se evadido da minha presença, foi o June que eu trouxe para casa.

Assim como qualquer pessoa que já tenha dividido a casa com um recém-estranho deve saber, o início desse tipo de convivência não é, por si só, um mar de rosas.

Houve momentos de arrependimento, seguidos de um pensamento constante em mandar o gato de volta para adoção, que vinham automaticamente acompanhados de um sentimento de culpa — afinal, eu havia decidido adotá-lo, e, no final do dia, ele só estava fazendo coisas que um gato faria.

Foram muitas adaptações ao longo do primeiro ano, como, por exemplo: fechar a porta do banheiro caso eu quisesse encontrar meus brincos outra vez na vida; não deixar nenhum objeto menor que 5 cm em nenhum lugar visível da casa; comida destampada no fogão, nem pensar; checar o closet para ter certeza de que o gato não ficou preso lá dentro; levantar as — poucas — plantas da casa a uma altura em que ele não devorasse as folhas; não usar copos de vidro na mesa de centro; e tantas outras lições e adaptações que marcaram o início dessa convivência.

Eu me lembro vividamente do instante em que recordei quem era o animal pensante da casa e quem era o bebê. Um eterno bebê, diga-se de passagem.

Uma das passagens mais interessantes com o June foram os 4 ou 6 primeiros meses em que passei acreditando que ele era uma gata, até que suas bolinhas estavam tão evidentes que alguém me questionou o motivo de eu chamá-lo sempre no feminino.
Tarde demais, todo mundo já acreditava que ele era uma gata, e até hoje é o/a June para muitas pessoas.

Eu sempre digo que ele é um gender-fluid cat. Why not.

O amor (aquele que do nada muda o rumo da prosa) é essa coisa que às vezes a gente adota sem nem saber muito bem do que se trata. Chega como mais uma responsabilidade, altera a vida e exige adaptações; te estressa a ponto de a desistência parecer o melhor caminho, mas que, com propósito, dedicação e curiosidade pelo aprendizado, pode se tornar uma das melhores coisas que nos acontece.

Quatro anos depois, a minha relação com o June é algo que eu jamais acreditaria que poderia desenvolver com um animal de estimação.
O que aprendi em níveis de paciência, flexibilidade e empatia por causa dele, eu não havia desenvolvido em toda a minha vida.

Um gato que morde as visitas que não lhe dão atenção, num nível de carência nunca visto em um felino, difícil até de imaginar.
Que senta no sofá e pede carinho para qualquer amigo que frequenta a minha casa; que sempre recebe as visitas na porta e, diferente da maioria dos gatos que se escondem, June quer sempre ser visto e notado.

Uma presença viva, que me enche de vida, que amo e respeito de uma maneira que eu nem sabia que era possível experienciar.

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