O que eu estou fazendo e o que realmente importa?
32 anos atrás, a minha mãe tinha 30 anos e eu estava nascendo — o segundo filho que meus pais estavam tendo. Segundo filho aos 30 anos.
Quando eu tinha uns 13 ou 14 anos, eu observava as minhas tias e tios, que tinham por volta de 30 anos, e os considerava pessoas tão maduras, tão certas de si e com a vida tão bem definida.
Verdade seja dita: muito do que eu considerava ser uma “vida definida” se provou errado ao longo do tempo. Muitos desses tios e tias, por exemplo, não estão mais com os parceiros com quem tiveram filhos. E, pra mim, algo que definia muito a ideia de uma vida sólida era justamente essa imagem de pessoas estarem casadas.
Entretanto, resgatando um e-mail intitulado “projeto de vida”, que eu mandei pra mim mesmo em 2013, notei a total ausência de um casamento nesse projeto.
Talvez o Jean de 20 anos já percebesse que casar não tem nada a ver com ter uma vida “definida”. E, apesar da ausência do casamento nesse plano, ter uma filha em 2024 era uma das metas que eu tinha em 2013.
Casar, ter filhos, ter uma vida definida.
O que, de fato, todas essas coisas significam?
O que eu deveria saber e ter conquistado aos 32 anos para que eu me sentisse certo de mim?
O eu de 14 tinha certezas. O eu de 20 tinha algumas metas e planos. E o eu de 32 anos não tem a mínima ideia do que está fazendo.
Ser adulto, quando se é criança ou adolescente, vem carregado de significados — de um senso de liberdade e da ideia de que os adultos possuem uma sabedoria e uma razão inerente. Quando você se torna um adulto, percebe que, em muitos aspectos da vida, a gente nunca deixa de ser criança.
É claro (ou ao menos desejável) que você se torne uma pessoa mais responsável quando vira adulto, que conquiste mais liberdade e que tenha mais poder financeiro. Eu já não sofro das mesmas coisas que sofria.
Mas ser adulto é sofrer por coisas novas — não é alcançar um estado de ausência de sofrimento.
Ser adulto não é ter certezas. É saber responder muitas das perguntas que o “eu criança” talvez tivesse, mas ainda assim ser surpreendido por muitas novas questões que eu sequer sabia que existiam.
É ter poder de compra para encher minha casa com todos os brinquedos que desejei durante a minha pobre infância, mas dar de cara com o fato de que existem muitos outros desejos, agora fabricados para adultos, aos quais — assim como aquela criança — eu também não terei acesso.
Acreditamos que o tempo nos traz sabedoria e esquecemos que, com o passar dos anos, novos desafios também nos são apresentados.
Essa ideia de “vida feita, certa e definida” simplesmente não existe, porque a vida vivida não é como a fase final de um videogame.
A vida do dia a dia nem sempre segue os nossos ideais, e muitas vezes não colabora para que o nosso planejamento saia como havíamos combinado com a gente mesmo.
Ser adulto talvez signifique aprender a lidar com esses desencontros entre o desejo e o real. Entre o que queríamos e o que de fato é possível.
É abandonar certos contos de fadas que contamos a nós mesmos.
E essa ideia — do real e do possível — talvez seja tudo o que eu tenha conquistado até aqui.
A Paola, minha filha planejada em 2013, não existe. E nem a ideia de ter filhos se sustenta mais.
Um casamento, enquanto instituição social, não poderia estar mais distante do que eu considero ter uma vida definida. Até porque o divórcio está aí justamente para que possamos redefinir essa vida quantas vezes for necessário.
Esse longo texto é uma tentativa de elaborar, pra mim mesmo, que fazer 32 anos não tem um significado pré-estabelecido, um lugar fixo onde eu — ou qualquer outra pessoa — devesse se sentir pertencente.
Porque o que importa na vida é o que fazemos dela. E seu significado é aquilo que nós mesmos decidimos.
É mais ou menos isso.


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