O Que Escondemos Quando Nos Mostramos?

Esse final de semana, assistindo ao primeiro episódio da segunda temporada de The Last of Us, o queridíssimo Joel (Pedro Pascal) me fez, por fim, escrever sobre: o que escondemos quando nos revelamos? Ou melhor, o que recalcamos na exposição?

Ou ainda melhor: o que deixamos de trazer à tona quando decidimos revelar ao mundo uma versão ou uma história que sabemos não ser a verdade sobre nós mesmos?

No caso da série (alerta de spoiler), Joel mentiu para Ellie sobre o que realmente havia acontecido no encontro com os Fireflies (onde ele dizimou, de forma truculenta, muitos dos integrantes). Essa mentira — e a sustentação de uma realidade que não aconteceu — leva ao fim do relacionamento dos dois da forma como havíamos conhecido na primeira temporada.

Mas, para além da série, há muitas coisas nas nossas realidades do dia a dia que recalcamos e que retornam em forma de sintomas.
Seja esse sintoma um mal-estar com nós mesmos, a sensação de estar vivendo uma mentira, ou o constante incômodo de não estar sendo verdadeiro.

Quando optamos por editar as nossas vidas para que os outros recebam apenas uma parte “melhorada” daquilo que realmente somos, estamos fadados a viver com esse sentimento de não pertencimento — um sentimento de não aceitação.

Uma forma simples de entender como isso funciona é olhar para as redes sociais: um lugar para onde nos voltamos com frequência na tentativa de nos sentirmos amados e aceitos.

Entretanto, se busco aprovação mostrando uma parte irreal de quem sou — ou seja, se o que publico nas redes sociais, na tentativa de me sentir aceito, é algo diferente daquilo que sou de fato —, as redes funcionam como o movimento oposto da busca por amor e aceitação.
Isso porque essa aceitação e demonstração de afeto (os likes) acontecem justamente com a parte editada de quem eu sou.

Logo, o que é aceito e curtido não é aquilo que eu sou, mas sim uma projeção daquilo que eu gostaria de ser — ou daquilo que acredito que o outro gostaria que eu fosse. E assim reforçamos a ideia de que o real eu, ou o eu da qual eu me sinto mais próximo comigo mesmo, não merece afeto, amor ou aceitação, uma vez que eu não o exponho.

Quando insistimos em recalcar a nossa verdade em nome de uma imagem ou comportamento que acreditamos dever ter, nos distanciamos de uma vida mais digna.
Digna aqui no sentido de uma vida onde temos mais contato com os nossos reais desejos, mais proximidade com os nossos sentimentos.

Ao optarmos, de forma consciente ou não, por revelar ao mundo uma farsa daquilo que sentimos — uma ideia paralela ou uma realidade editada — deixamos de lado a nossa subjetividade e, como consequência, a nossa felicidade (ou a busca por ela).

Existem mentiras que contamos para os outros. Mas não há mentiras que nos destruam de forma mais profunda e silenciosa do que aquelas que contamos para nós mesmos.

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