Subjetivo 2/2

Depois de muitos anos sem acreditar na eficácia da análise como método terapêutico — uma vez que, para mim, existia a falta de embasamento científico prático, ou seja, testes em laboratório que evidenciassem a eficácia do método analítico para a cura das nossas tristezas e mazelas —, eu, por fim, deitei no divã.

O engraçado desse texto sobre terapia é notar que, no parágrafo anterior, escrevi, por coincidência, sobre algo muito abordado na análise: a existência da falta.

Recorrentemente, o que levamos para a terapia é uma falta: falta de uma alegria, de um sentimento de pertencimento, de um relacionamento, de um emprego ou a falta de um comportamento esperado no outro e que, de alguma forma, nos incomoda.

Se estamos tristes, sentimos a falta de nos sentirmos felizes. Naturalmente.

O que a psicanálise, para mim, me ensina com frequência é entender de onde essas faltas vieram, como se tornaram parte de quem eu acredito ser ou por que tenho a necessidade de preenchê-las com algo que considero adequado.

Dificilmente será tema da sua terapia algo que você acredita ter em abundância. Ninguém se incomoda em ser amado demais, em ter muito dinheiro ou muito sucesso, em ter muitas posses: carros, casas, roupas e celulares. Ninguém se incomoda em ser muito feliz ou ter muita saúde.

As dificuldades ou desafios na vida que trazemos para a terapia são, como já dito, muito relacionados à falta — ou à falta que vemos nos outros.

E isso é, de fato, algo natural, uma vez que nós, enquanto seres humanos, não aprendemos a viver com a falta, seja essa falta algo concreto na realidade ou uma falta subjetiva.

Enquanto a terapia comportamental tentava editar meu comportamento para que eu me enquadrasse dentro de um sistema esperado, a análise me ensina a conviver com essa falta e a reelaborar o meu sentimento. Não se trata de tentar inserir algo onde acredito que falte alguma coisa, mas justamente o contrário: entender de onde essa falta nasceu e aprender a conviver com ela.

A falta é parte importante do que somos e do que temos.

E foi na psicanálise que passei a entender que o sentimento de falta e a sensação de inadequação estão, muitas vezes, relacionados ao olhar do outro.

E é justamente no olhar do outro que a psicanálise foi um divisor de águas no meu processo terapêutico e analítico, porque, na psicanálise, um dos temas frequentemente abordados é a autonomia do sujeito — a compreensão de que o outro é justamente isso: o outro.

Partindo desse princípio, ganhamos autonomia sobre quem somos e, ao mesmo tempo, entendemos que os outros não são extensões de nós mesmos. Dessa forma, o peso que o outro exerce sobre quem somos — e até mesmo sobre os nossos desejos — deixa de ser tão determinante.

Conseguir usufruir de uma vida mais autônoma, onde o outro não implica (ou implica menos) nas nossas decisões, significa também compreender que não precisamos agir, ser ou viver da forma como acreditamos que o outro espera de nós. Até porque, muitas vezes, esse olhar do outro é apenas uma projeção daquilo que imaginamos ser a expectativa dele.

A autonomia e a compreensão de que somos indivíduos colocam de lado a ideia de que devemos nos conformar a modelos de vida pré-determinados, como se houvesse uma única maneira correta de agir, sentir e se comportar. A psicanálise, para mim, é, sobretudo, sobre aceitar quem somos — o que quer que seja.

Obviamente, respeitando os limites, sejam eles da lei, da ética ou da moral. Embora até mesmo esses limites possam ser questionados.

Encontrar um espaço onde eu não me sentisse deslocado das normas sociais, mas que, ao mesmo tempo, me permitisse questioná-las e me enxergar como um sujeito único, com meus próprios dilemas, desejos e faltas, foi o que me fez me apaixonar pelo processo analítico.

A psicanálise me fez entender que não há nada de errado em ser quem sou, pensar como penso e agir como ajo. Que há espaço suficiente no mundo para que sejamos como somos, sem a necessidade de nos conformarmos a formas estabelecidas fora de nós.

Há muito mais que eu poderia descrever sobre minha paixão pela psicanálise e sobre as ideias que ela me trouxe: sobre a loucura, o desejo, o outro, o eu, o ego, meus pais, minha cultura, minha classe social e muito mais… Até porque a psicanálise é sobre isso: sobre palavras, sobre se expressar, sobre falar e também sobre ouvir.

Mas, por ora, é isso. [corte lacaniano].

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