Eu já indiquei terapia para você hoje?
Assim como os evangélicos e cristãos em geral, tem como objetivo de vida trazer mais pessoas para as suas religiões, eu tenho como objetivo qualquer outra coisa que não essa.
Mas quem me vê assim meio despercebido, pode acreditar que eu sou um pregador da palavra da terapia.
Não é incomum eu perguntar para as pessoas se elas fazem terapia, não é incomum eu indicar terapeutas para as pessoas e não é incomum você me pegar falando sobre processos de terapia com as outras pessoas, em qualquer setting ou situação.
Talvez esse fosse até um bom tema para que eu trouxesse para falar em terapia, mas acontece que ultimamente eu não faço terapia (click bait).
A minha geração (prepare-se, um monte de obviedades estão prestes a ser escritas) cresceu com pais (mas também avós, tios, primos…) que precisavam de terapia, mas que:
Não conheciam os benefícios de um processo terapêutico, ou
Acreditavam que apenas pessoas “”loucas”” faziam terapia, ou
Se conheciam e acreditavam no processo de terapia, não tinham recursos para fazê-la.
O resultado de crescer nesse ecossistema foi: eu fui fazer terapia, oras!
Mas é aqui que outros fatores entram em conta, porque se você vem de um contexto social onde a terapia nunca foi um assunto, você acaba não tendo conhecimento de que “terapia” dentro do contexto de saúde mental é um mundo vasto, descrito por muitos autores, desenvolvido por muitas correntes, e aplicada de muitas formas divergentes (às vezes).
Diferente de um neurologista, cardiologista, ou endócrino que utiliza das mesmas fontes e matrizes de conhecimento e que muito provavelmente utilizarão das mesmas práticas para tratar de um problema de saúde, na saúde mental nem todos os terapeutas, psicólogos ou analistas utilizarão da mesma abordagem para tratar um sintoma ou uma queixa.
Lá vai eu, pesquiso por psicologo no Google, leio alguns reviews, vejo o quão distante é a clínica, ligo e checo para ter certeza que o plano de saúde cobre o tratamento, e no dia e horário agendado lá estou eu, sentado de frente para uma pessoa da qual eu nunca tinha visto antes, que nunca se quer tomei um cafezinho junto, mas pronto (nem tanto) para falar dos meus traumas e desconforto com a vida.
Muito se fala em fazer terapia, pouco se fala o quão estranho é confiar nossas mazelas na mão de um estranho da qual não temos afinidade alguma.
Anos se passam, troco de psicologo, mudo de país… a vida acontece e em uma coisa eu nunca perco a convicção: terapia é importante.
E no próprio processo de fazer terapia e a minha curiosidade pelas coisas fazem com que eu queira entender mais sobre o assunto terapia.
Uma coisa que eu nunca havia entendido sobre o meu processo era o do porquê minha psicologa não me tratar da mesma maneira que eu via os psicólogos tratando as pessoas nos filmes:
Ali naquela sala não tinha um sofazinho ou um divã para que eu deitasse e olhando para o teto. Eu sempre vi isso na TV.
Também não tinha o bloquinho de nota e aquelas respostas vagas, muitas vezes curtas e sem sentidos que eram tão comuns dos psicólogos.
Outra coisa que eu me queixava era do porquê a necessidade de um tratamento ou de uma interação em uma forma qual tudo parecia ter saído de um checklist.
Realmente existe esse manual da vida perfeita, eu me questionava…
No processo de terapia tudo parecia muito prático, seguindo uma fórmula, tudo tinha um modelo muito racional de como se comportar ou de como não se comportar para que se obtivesse um resultado esperado.
Até que entendi que o que eu fazia era terapia comportamental: um processo de terapia que foca no ambiente e estímulos que vivenciamos e aprendemos, visando transformar a forma que respondemos a esses estímulos e aprendizados. Complicado? Leia de novo.
Então, sim, é uma terapia que foca no comportamento e acredita que existe um padrão a ser seguido para que aquelas queixas deixem de existir.
Se A mais B, você vai encontrar D. Infelizmente você aprendeu a fazer de outra forma, o que te traz um retorno não esperado o deixando deprimido, magoado, triste e afins…
Logo, em terapia vamos reaprender a fazer esse comportamento e como você responde ao capotamento dos outros, chegando finalmente a D. Que é o resultado ideal, esperado, o correto.
E vou te dizer que apesar de ser diferente do que eu estava esperando em relação a tudo que eu já havia visto em filmes e na TV, estava funcionando. Não tem o sofá, as respostas vagas, o bloquinho de nota, mas funcionou por muitos e muitos anos.
A terapia é muito efetiva quando aplicada na tentativa de mudar comportamento, não à toa que a Super Nany (sim, aquela do seriado da televisão) utiliza essa terapia com as crianças -e com os pais também.
Só que ao longo do processo, tudo era descrito de uma forma muito prática. Tudo parecia ser possível resolver de forma muito simples se eu de fato conseguisse seguir aqueles passo-a-passo.
Com o tempo eu comecei a notar que tudo era meio semelhante: responda de forma diferente a esse estímulo e você tera um resultado diferente, e aqui estão as formas da qual você deverá responder X, Y, Z.
E mais uma vez, a terapia comportamental é muito importante e tem seu papel consolidado no tratamento das pessoas. Só que eu sentia falta da minha subjetividade.
Se o meu tratamento é o resultado do que foi aprendido da observação de ratos em laboratórios e é o mesmo tratamento que será aplicado para qualquer outra pessoa, onde eu entro nessa equação?
E foi assim que abandonei a terapia em busca de algo que ouvisse a minha individualidade. E foi assim também que após anos acreditando que Psicanálise e que Freud eram uma filosofia de vida e não um meio de analisar a subjetividade da vida humana, que eu finalmente deitei no divã.


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