Todo Mundo Goza

Existem determinadas bagagens que você carrega ao longo da vida e que demora muito tempo para você notar que esta carregando.

Ser gay, e, consequentemente, nascido gay, trouxe comigo algumas malinhas de mão que levaram muitos anos (e análise/terapia) para que eu pudesse despachá-las.

Uma dessas malas, hoje com pouco mais de 30 anos, eu consigo perceber, sempre foi a mala mais pesada: a necessidade de agradar e pôr o desejo do outro acima do meu.

Quando você é gay adolescente nos anos 2000 e está construindo a sua subjetividade, vivendo e inserido num cenário hostil e inseguro, a necessidade de criar fórmulas de sobrevivência é extremamente necessária.

Para mim, que sempre tive muito medo de que as pessoas pudessem descobrir sobre a minha sexualidade e deixar de me amar, a minha estratégia de sobrevivência foi me transformar numa pessoa que satisfazia as necessidades dos outros; eu vivia em função do que era necessário para fazer o outro feliz. Ser agradável.

Obviamente que dentro do que eu considerava ser uma pessoa agradável naquela época, pois acredito que eu possa ter sido extremamente deselegante para muitas pessoas, enfim, paciência.

Essa era a estratégia de sobrevivência onde eu acreditava que, sendo uma pessoa dócil, gentil e extremamente preocupada com as necessidades dos outros, eu teria a garantia do amor delas.

E eu realmente acreditava que, realizando as vontades dos outros, muito mais do que as minhas próprias, eu de forma nenhuma perderia o amor dessas pessoas, independentemente da minha sexualidade.

Essa foi a fórmula perfeita para criar uma pessoa que não tinha vontades e desejos próprios; não havia aqui, então, a minha própria subjetividade, uma vez que eu vivia na função de realizar os desejos dos outros.

E essa também pode ser a fórmula para criar pessoas insatisfeitas com a vida, pois, quando apenas o desejo do outro é importante, você deixa de viver o que é importante para você (redundante esse parágrafo, porém, sempre é necessário repetir). Você passa a preocupar-se muito mais em como agir para agradar as outras pessoas e esquece que você também é um sujeito munido de desejos que precisam ser realizados para que você tenha uma vida satisfatória.

Aí um dia (ou, no meu caso, depois de muitos anos), você acorda e decide que é o momento de satisfazer as suas necessidades, as suas vontades e os seus desejos. Só que, com essa vontade, você também descobre um medo de perder o amor das pessoas, esse amor que parece ser alicerçado na sua característica principal de satisfazer o outro.

Aqui eu já gostaria de dizer: foda-se os outros.

Mas não é bem assim; nenhuma das extremidades é o campo ideal.

Depois de muitos outros anos, talvez você consiga perceber que, como em quase tudo nessa vida, o ideal é o balanço entre as extremidades. Não é satisfazer a necessidade do outro de forma religiosa para manter os amores, até porque uma relação saudável (as que nos importam por aqui) não é baseada em quanto de ‘benefício’ o outro pode retirar de você. Não é sobre o quanto você o satisfaz.

E também não é sobre apenas satisfazer as suas necessidades, porque essa relação saudável de amor deve, ou ao menos deveria, ser baseada sobretudo no respeito e na empatia. E, com empatia, você entende que o outro também tem necessidades e, com respeito, você pode considerar a necessidade do outro. E vice-versa.

Saber impor ou ao menos comunicar as suas necessidades pode ser um trabalho árduo se o seu modo de operar uma vida inteira foi justamente sucumbir ao desejo esperado pelo outro. Mas, com o tempo e munido da constante insatisfação de apenas satisfazer o outro, esquecendo de si próprio, você vai aprendendo…

A gente realiza o desejo do outro com medo de perdê-lo, mas, se me ver realizando os meus desejos (que muitas vezes não vão contra a possibilidade de você realizar os seus) é motivo para que o outro deixe de me amar, me desculpe, mas você nunca me amou, e não há a possibilidade de perder algo que você nunca possuiu.

Sendo assim, com empatia e respeito, todo mundo goza.

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