Em frente a uma tela em branco, tentando desenvolver um texto, um raciocínio, na esperança de fazer algum sentido no final […]
[…] E não é bem assim que viemos ao mundo?
Uma página em branco que começa a ganhar seus contornos assim que passamos daquele plano para esse de cá.
Assim como naturalmente (ou quase naturalmente) as palavras vão surgindo à minha frente e a pagina em branco vai ganhando cada vez mais palavras e sentenças, ao nascer essa nossa página em branco chamada vida (e tudo que cabe dentro dela) vai ganhando contornos.
Alguns contornos nos são impostos naturalmente – e naturalmente se entende pelo processo de passar os contornos de uma pessoa a outra sem pensar a respeito. Naturalmente não necessariamente significa que esses contornos são de fato naturais.
Eu por exemplo, tenho plena convicção que vim a esse plano com contornos um tanto quanto atípicos dos daqueles que me apresentaram meus contornos. Desde o nascer vamos recebendo contornos que nos são apresentados pelos nossos pais.
Porém os contornos que eu tive acesso assim que nasci não me cabiam, não me davam sensação de existência ou de forma, e pelo contrário, esses contornos me limitavam.
E quando pensamos sobre contorno é muito importante lembrar da sua importância real nas nossas vidas, pois só com os contornos é que podemos identificar um objeto, um corpo, uma existência. Mas alguns (senão a maioria) desses contornos são apenas fórmulas que nos enquadram dentro de uma forma, dentro de uma expectativa ou um espaço previamente determinado e determinante.
Esses contornos me foram dados, e a página em branco que poderia ser desenvolvida de forma com que eu me sentisse presente e autor da história, na realidade me enquadrou dentro de um processo já estipulado e tramado, um personagem dentro de um conto já contado, e assim meu papel dentro dessa história estava longe de ser uma página em branco.
Diferente desse texto que quando comecei a construí-lo se debruçava em uma página em branco que ao longo das sentenças eu tive a oportunidade de escolher minhas próprias palavras e o que contar a partir delas, a página em branco da minha vida era uma história já contada e estava longe de ser a minha própria história.
Dentro dessa narrativa que estou produzindo eu posso escolher -apesar das minhas limitações- sobre o que será o meu próximo capítulo, o que desenvolver na história, o que deixar de lado, o que de fato pode ser um agregador na narrativa ou não, eu decido para onde levar o leitor, eu sou o autor e tenho acesso às minhas opções, porem quando nascemos não temos todas essas ferramentas, não são nos apresentados a todas essas opções (ou pelo menos não éramos).
Viemos ao mundo com algumas atribuições pré destinadas, tarefas e comportamentos que nos são esperados.
Exemplo 1:
Se você ao nascer é qualificado no Sexo Feminino, você naturalmente vai gostar da cor rosa, vai adorar brincar com bonecas, usar saias e vestidos e ter a possibilidade de ter um cabelo longo, que ultrapassam muitas vezes a altura da cintura.
Se você for identificada como sexo feminino, você vai amadurecer rapidamente, ter uma aptidão nata para cuidar dos afazeres domésticos e será um tanto quanto mais sentimental do que o sexo oposto (o masculino).
O sexo feminino vai demonstrar com mais facilidade (e fragilidade) os seus sentimentos.
Se você é do sexo feminino vai ter menos capacidade física, menos noção de espaço e, muito provavelmente vai ter uma dificuldade particular em tomar decisões racionais.
Sua maior ambições na vida: casar e ter filhos. E essa será uma parte que vai tomar grande parte da sua página em branco, porque afinal casar e ter filhos é tudo que o sexo feminino pode oferecer nesse plano de cá da vida.
Sua devoção ao parceiro (nitidamente do sexo oposto, porque claramente o sexo feminino haverá de se relacionar com o sexo masculino) é uma das suas maiores qualidades. Você enquanto ‘contorno’ de um ato feminino é fiel, embora apenas ao sexo masculino, pois com outras pessoas do sexo feminino você nutre uma rivalidade acirrada, mesmo que não entenda o motivo dessa tal rivalidade.
Assim seguindo no que antes poderia ser uma página em branco e enquanto cresce você ira se casar e ter filhos, você deve renunciar a trivialidades como sonhos pessoais (quaisquer sonhos), carreira profissional ou qualquer outra forma de contar a sua história, pois agora a sua história resume-se a criar os seus filhos.
E agora seus filhos tomarão todas as suas paginas futuras.
Bingo, você cresceu e completou todas as suas páginas em brancos recebidas no nascimento. Agora você se tornou um ser contente, aquele que se contenta com o que possui pois não tem ambição por nada mais.
Você acabou de se tornar uma história contada por completo, ou eu diria que quase que por completo.
Agora o seu papel é preencher as folhas e páginas em branco dessas pequenas criaturas que você (por livre e espontânea vontade) escolheu trazer para o plano de cá.
A sua função (uma vez que suas páginas em branco estão completas) é preencher de forma arbitraria todas as paginas em branco dos seus filhos, e repassar a sua prole toda a história e expectativas que um dia se recaíram sobre a sua própria personalidade ao nascer.
Calma ai, eu disse personalidade? Bem nessa história não cabe ao indivíduo ter uma, não há espaço para subjetividade. Todas as histórias devem seguir o mesmo modelo.
E é assim que mantemos o ciclo, naturalmente.


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