O desserviço dos princípios e valores familiares

Todo mundo sempre diz de forma orgulhosa, de como a família teve papel fundamental no desenvolvimento dos valores, da ética e dos princípios que se carrega.

Pois bem, esses valores familiares podem ser a pior coisa que você tem carregado.

Primeiramente  confiamos nos valores tradicionais familiares que são passados de geração em geração. Julgamos que recebemos os valores mais corretos e humanizados do que qualquer pessoa poderia receber, os princípios morais mais elegíveis de uma boa pessoa e que constituímos uma ética humanizada guiada pelos valores familiares como clausulas pétreas e que não podem ser mudadas. Não questionamos.

Segundo, confiamos na nossa família, julgamos que se é transmitido pelo nosso núcleo materno e paterno não pode ser algo ruim e então usamos desses valores como uma bussola moral para determinar o que é bom, certo, mal, errado, praticável, impraticável, aceitável e inaceitável em nossas vidas (e usamos tudo isso para julgar a vidas dos outros). Não questionamos.

Os valores que as nossas famílias nos transmitem podem ser a pior herança que a cultura vem nos proporcionando em todos esses anos da humanidade. É dentro dos valores que as nossas famílias nos transmitem (e a cultura, claro) toda a carga de pré-conceito (racial, religioso, sexual, étnico, afins) e que iremos nutrir como correto desde a infância, usar como modelo para viver em sociedade, usar como parâmetro para julgar as pessoas, e por fim, iremos transmitir aos nossos filhos quando os tivermos.

Richard Dawkins no livro “The God Delusion” descreve que aprendemos a gostar de religião, porque assim se faz as famílias desde cedo com as crianças. Não se dá espaço para que as pessoas possam desenvolver seus próprios interesses e possíveis crenças. Há uma verdadeira lavagem cerebral infantil que invoca uma religião para a criança, sem mesmo perguntar se ela quer ou aceita essa religião. Ela será ensinada de qualquer forma. Assim se cria um teísta (pessoa que acredita em um D’us, deuses).

Assim se cria uma pessoa machista, assim se cria uma pessoa racista, homofóbica, misógina, e é assim que criamos ao longo do tempo uma sociedade que oprimi as minorias e adota como modelo social comportamentos que só visam beneficiar uma maioria opressora.

Devemos no exercício de se tornar uma pessoa melhor, começar a questionar e refletir sobre os valores que as nossas famílias nos transmitiram. Questionar o que é moral e o que é correto. Devemos tocar nas cláusulas pétreas familiares de forma a renovar o pensamento humano e social.

Nenhum pensamento, nenhum comportamento ou modelo social deve ser considerado imutável e inquestionável. Tudo sempre pode ser modernizado, alterado, ajustado e devemos refletir sobre como vemos o mundo o tempo todo.

Não devemos aceitar como guia moral um pensamento desenvolvido a dois mil anos atrás e que foram transmitidos de pai para filho de forma inquestionável ao longo dos séculos. Já não usamos a medicina daquela época, por quê deveríamos usar como modelo ético e moral o pensamento?

Historicamente a humanidade aprendeu a confiar nas pessoas mais velhas. Evolutivamente estamos programados a acreditar no que os nossos pais nos dizem. As crianças de milhares de anos atrás confiavam nos patriarcas das tribos e viam que seus conselhos ajudavam na caça, na plantação, na segurança e contribuíam para o desenvolvimento e sucesso daquela tribo. As experiencias transmitidas pelos mais velhos, ajudam na prosperação das tribos e essas experiencias eram seguidas por todos sem qualquer questionamento.

Essa característica sobreviveu como comportamento até os dias de hoje. Quando criança não questionamentos, não refletimos e não pensamos por nós mesmos, a maioria de nós aceita como verdade absoluta aquilo que os nossos pais nos dizem. Aprendemos desde as épocas mais remotas a confiar em nossos pais sem questionar. Desenvolvemos o nosso princípios.

É claro que nem toda sociedade ensina a ser racista, homofóbico ou machista. Nem todo pai ensina princípios não mais aceitáveis nos dias de hoje na nossa sociedade. Mas por via das dúvidas, você adulto hoje deve questionar todo os seus guias morais da sua infância e refletir se realmente jamais podemos mudar nossos princípios.

As vezes os seus princípios é um desserviço para que possamos ter uma sociedade que julgue menos e que aceite, compreenda e ame mais.