Sabemos como datas comemorativas direcionados para gêneros específicos são comprometedoras, porque infelizmente uma era de pessoas que trabalham com comunicação não acompanharam as evoluções sociais que tivemos e por esse motivo essas pessoas continuam por construir situações completamente embaraçosas (se lê machista).
No dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, uma academia de musculação publicou isso:

Aos olhos de 26 pessoas que curtiram a publicação não havia nada demais no título da imagem, e o mais espantoso é que dentre essas 26 pessoas que não viram nenhum tipo de problema, 16 eram mulheres.
“Parabéns para as mulheres que são mais ‘macho’ que muitos homens”.
E por que espantoso?
A primeira impressão é de que esse titulo até parece ser algo de se aplaudir, porque oras “enfim alguém reconhece que algumas mulheres são mais macho que muitos homens, até que enfim somos reconhecidas como macho e que fazemos coisas de macho.”
Mas espera aí, o dia internacional da mulher não é dedicado justamente para reconhecer os atributos femininos como iguais ao de qualquer gênero? Não é uma data para se valorizar as conquistas femininas e o seu papel (seja ele qual for) na sociedade? Então por que eu deveria parabenizar as mulheres de forma a reconhecê-las como homens?
A mensagem da imagem deixa claro que o autor acredita que comportamentos de “machos” são superiores aos comportamentos tidos como de fêmeas e dessa perspectiva já nascem ao menos dois problemas:
1ª não existe comportamento masculino ou feminino dentro da sociedade. Ou ao menos não deveria existir.
Não existe comportamentos que devem ser realizados apenas por homens ou por mulheres. Lugar de mulher é onde ela quiser, e o mesmo vale para os homens. Então não há porque dizer que mulheres que malham ou praticam fisiculturismo estão se apropriando de um comportamento masculino, porque simplesmente não existe comportamento masculino, e se existe foi a sociedade quem criou e padronizou tais comportamentos, justamente para diminuir as mulheres ou reprimir minorias que queiram pratica-los. Isso tudo com o intuito de favorecer e privilegiar os homens. E nós sabemos que não podemos privilegiar socialmente gêneros por conta de que não há princípios para isso. Nunca houve, nunca haverá.
2ª Comportamentos aceitos socialmente como “apenas praticados por homens” não são por si só melhores que quaisquer outros comportamentos, porque o simples fato de ser homem não torna ninguém superior a ninguém. Então uma mulher “macho” tem o seu grau de importância tal qual uma mulher “fêmea”, porque ser macho ou ser fêmea não caracteriza superioridade, apenas identidade como pessoa.
Ser mulherzinha é tão bom quanto ser macho.
Tentar elogiar alguém dizendo a essa pessoa que seu comportamento é de “macho” não é uma forma de elogio, porque ser “macho” não é ser superior a ninguém, é simplesmente ter hábitos socialmente construídos para favorecer os homens em relação as mulheres.
E porque ninguém questionou isso?
Vivemos numa sociedade tão machista, com o patriarcado embutido em nossas raízes tão fortemente que simplesmente não conseguimos abrir os olhos. O machismo já se tornou algo tão natural que a maioria esmagadora da população não consegue observar essas atitudes.
Mas se a maioria das pessoas não se importam com isso e se quer vêm isso, por que eu devo me importar? Por que eu devo problematizar algo?
Porque simplesmente uma maioria de pessoas cometendo um ato errado não torna aquele ato correto.
A democracia não tem haver apenas com quantidade, existe há necessidade de haver bom senso nesses atos. A voz do povo não é a voz de D’us.
Acreditando piamente que um ilustrador jamais usaria essa legenda machista, eu fui pesquisar a origem da arte.
A imagem em si é do ilustrador David C. Matthews, que entre as suas personagens, há uma gama enorme de mulheres adeptas ao fisiculturismo. A imagem retratava um reunião dessas várias personagens em comemoração aos 10 mil pageviews ao site do ilustrador (10 mil visualizações de página) e vocês podem conferir aqui.
Posteriormente a imagem foi alterada por um perfil do Instagram especializado em machismo fisiculturismo feminino. Foram eles os responsáveis por legendar a imagem. O perfil no Instagram é repleto de mensagens machistas, o que reforça como as pessoas não refletem sobre como a sociedade valoriza comportamentos “masculinos” em relação aos comportamentos “femininos”.
O pior de tudo, é descobrir através da minha pesquisa, que Juliana Salimeni (apresentadora de tv, segundo sua biografia), também publicou a imagem no seu Instagram. O perfil da webcelebridade conta com mais de 8 milhões de seguidores e a publicação dessa imagem rendeu mais de 49 mil curtidas, e nos comentários pouco se falou do machismo, mas muitos problematizaram algo completamente irrelevante diante o ocorrido: músculos deixam ou não a mulher mais bonita?!
Com a exposição tão grande dessa imagem era de se esperar muitas pessoas tocando no assunto machismo, discutindo como é problemático a tentativa de valorizar as mulheres dizendo que estas têm “comportamentos de homens”, mas isso não aconteceu, e pouco ocorre na sociedade de forma geral.
Devemos problematizar sim o que é um problema, devemos tocar na ferida, devemos falar, exigir, lutar, porque do contrário a ordem é seguir como está, e como está, não está bom!
Infelizmente o que muitos enxergam como a problematização de algo que as pessoas não se importam, na realidade é um comportamento que está sendo levado adiante e continua privilegiando o que um dia a sociedade resolveu privilegiar.
Resumindo: não há comportamento de homem ou de mulher. Homem não é melhor do que mulher. Somos todos tudo, basta querer. Fim.

