A utopia dos opressores

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Alice no País dos Opressores

Vamos falar um pouco sobre o que é preconceito, racismo e machismo?

Recentemente me vi envolvido em uma situação bem complicada.

Eu estava em um restaurante onde o “showman” da noite estava conversando com os clientes e fazendo vários tipos de brincadeiras, e em um certo momento dois clientes se levantaram, foram até a gerencia, reclamaram das piadas do showman e foram embora indignados.

Motivo: algumas piadas do apresentador teriam sido extremamente homofóbicas.

E foram?

É nesse exato momento que entra em jogo a “utopia dos opressores”. Para héteros cisgêneros brancos, identificar uma piada homofóbica é extremamente complicado, pois a opressão não é sentida pelos opressores. Quem comete a opressão nunca irá entender como é se sentir oprimido, e muitas vezes os opressores não entendem que as atitudes que eles têm são completamente machistas, homofóbicas e racistas.

Como os opressores nunca passaram por preconceitos envolvendo gênero, sexualidade ou raça, eles não conseguem identificar quando estão cometendo esse tipo de preconceito. Para essa parcela da população, a definição de preconceito está muito equivocada.

Eles vivem numa utopia tão exagerada (aliás, utopia), que as suas definições de preconceito são: bater em gay, bater em mulher, bater em negro.

Qualquer coisa que saia desses três tipos de comportamentos, eles não conseguem entender que são preconceitos. Piadas onde diminuem a mulher, onde ridicularizam comportamentos homossexuais ou definições de posturas menos etilistas envolvendo negros, para eles são só mais uma forma de “se referir” as outras pessoas, e não entendem em momento algum que inferiorizar minorias de qualquer forma que seja, também é preconceito. É preconceito.

Você pode não entender, e se quer ter ouvido falar, mas quando você diz para o seu filho “não seja mulherzinha”, VOCÊ ESTÁ SENDO COMPLETAMENTE MACHISTA!

Mas por que? Porque a partir do momento que você utiliza um gênero para dizer à uma pessoa que ela é inferior a outro, você está desqualificando aquele gênero. Você está dizendo que ser “mulher” é pior do que ser homem, então se seu filho não tiver as atitudes que você considera como boas, ele estará sendo mulherzinha, algo ruim, algo ridículo, algo que as pessoas não devem ser ou querem ser. Isso meus caros leitores, é MACHISMO. Ficou claro?

Quando você ilustra uma situação mais sentimentalista que você passou e justifica “eu estava parecendo um gay”, você passa uma mensagem que ser gay é algo ruim e que ninguém deveria ser, pois ser gay é ser assim: inferior as outras pessoas. Isso é preconceito. Ficou claro?

Quando você diz à uma pessoa que o trabalho que ela fez, foi um trabalho ruim e diz isso com a frase “que trabalho de preto”. Ai ai ai, meu caro, você é um racista. E eu nem preciso explicar o porquê né!

E foi assim que eu descobri a utopia dos opressores. Naquela noite, todos os héteros cisgêneros presentes tentaram argumentar que: “aqui não há nenhum tipo de preconceito, temos até funcionários que são gays, isso de homofobia não existe mais. Agora porque eu tenho uma opinião e não gosto de gays, eu sou homofóbico?!”. É lamentável ouvir isso, mas sim, eu ouvi.

Eu acredito sim que um processo judicial por danos morais é o mínimo que os oprimidos devem realizar nesse tipo de situação, mas além disso, ao invés de apenas gritar e dizer que se sentiu diminuído, ridicularizado e inferiorizado, os oprimidos devem também ensinar os opressores o que é opressão. Sim, devemos educá-los.

Os opressores aprenderam a ser como são, aprenderam que usar negros como forma de trabalho sujo, ruim, mal feito é algo normal. Que ser mulherzinha é ser frágil, insegura, fraca. Que ser gay é ser inferior, bobo e viver a margem da sociedade.
Os opressores acham que porque convivem com mulheres, gays e negros, eles não são preconceituosos. Afinal, Hitler era louco e queria uma raça pura, eles, os opressores até andam no mesmo ônibus que negros, casam com mulheres e dão empregos aos gays: olha só como eles não são preconceituosos.

NÃO.

Devemos ensinar que usar a palavra “gay” como exemplos de coisas ruins, independente do que seja, é como levar uma lâmpada fluorescente na cara enquanto caminha na avenida Paulista. Que ser chamado de viadinho por qualquer comportamento que seja, é como qualquer outra agressão física. Que acreditar que as mulheres devem cuidar sozinhas da casa e dos filhos é ser como os maridos que agridem suas esposas. E que achar que negros são inferiores, marginais e menos competentes, é como ser um senhor do engenho que mantem negros escravos na senzala. Tudo isso é ser preconceituoso.

Acreditar que vivemos num país tolerante e que dispõem das mesmas oportunidades para todos é a mesma coisa que acreditar que o Papai Noel vai te trazer presentes, diretamente do Polo Sul, em um trenó com renas. E que ele descerá pela sua chaminé.

Acreditar que não existe preconceito, mas comparar as pessoas usando raça, gênero e sexualidade para ridicularizar o outro, é pior que ter preconceito, é não ter cérebro.

Então antes de dizer que você não fez piada preconceituosa, aprenda o que é preconceito.

caso não saiba o que é cisgênero, leia aqui.